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Qual o interesse da Rússia na capacidade de se 'desconectar' da internet e por que isso é um desafio?

País aprovou leis com medidas técnicas que interferem nos provedores com a instalação de equipamentos do governo. Além de se desconectar da internet [...]

Por Campos em 11/01/2020 às 01:05:32


País aprovou leis com medidas técnicas que interferem nos provedores com a instalação de equipamentos do governo. Além de se desconectar da internet global, Rússia quer garantir o funcionamento de serviços locais para criar a 'RuNet'

Roy Andre Tollefsen/FreeImages

Para nos desconectarmos da internet, basta ligar o "modo avião" no celular ou retirar a tomada do equipamento instalado pelo provedor. Para um país, no entanto, essa tarefa é bem mais complicada e exige planejamento – ainda mais quando a intenção é manter a rede em funcionamento para serviços fornecidos dentro do país.

Depois de alguns fracassos, a Rússia anunciou que teve sucesso em uma tentativa de se "desconectar" da internet mundial, deixando em funcionamento uma grande rede interna que acessa somente os serviços localizados dentro do país.

O feito é resultado de uma série de medidas legislativas e técnicas, criando obrigações para os provedores que atuam em território russo.

A jornada legislativa começou em 2014, quando o parlamento russo aprovou uma lei obrigando todos os prestadores de serviços de internet a armazenar dados referentes a cidadãos russos em servidores dentro do país.

A regra entrou em vigor em setembro de 2016. (O Brasil chegou a cogitar uma medida semelhante no Marco Civil da internet, mas a ideia foi abandonada por conta dos riscos de isolamento e indisponibilidade de serviços.)

Outro marco ocorreu em 2018 com a proibição do Telegram. Os responsáveis pelo aplicativo não entregaram chaves criptográficas que permitiriam grampear as comunicações dos usuários. Desde então, segundo uma reportagem da "Associated Press", o aplicativo se transformou em uma ferramenta para a organização de protestos no país, operando de maneira clandestina.

A lei da desconexão em si, chamada de "Lei RuNet", entrou em vigor de 1° de novembro de 2019. Ela é a responsável pelas medidas técnicas e legais que legitimam e viabilizam a "desconexão" da Rússia. Essa lei prevê que todos os provedores devem instalar equipamentos (de software e hardware) fornecidos por autoridades russas.

A lei ainda obriga as empresas com infraestrutura de telecomunicação a informar ao governo a existência dos pontos de troca de tráfego (PTT) e de qualquer rota de comunicação capaz de conectar o país a redes estrangeiras. Não é permitido usar pontos de conexão cuja existência não foi notificada ao governo.

Treinamentos oferecidos pelo Roskomnadzor, o Serviço Federal de Supervisão de Comunicações, também são obrigatórios para as equipes que atuam nesses provedores de telecomunicação.

É a combinação dessas medidas que permite que a Rússia "desligue a internet" sem desligar o serviços e sites disponibilizados dentro do país. Mas essas medidas permitem muito mais que apenas o desligamento da internet.

Internet foi projetada para superar problemas de comunicação, o que dificulta a imposição de bloqueios

Mike Gieson/Freeimages.com

Controle de rotas

Por regra, a internet procura conectar dois computadores através do melhor caminho. O "melhor" nem sempre é o mais curto: pode ser o menos congestionado, o que tem mais capacidade, o mais barato ou aquele que desvia de problemas técnicos (cabos rompidos, por exemplo).

A internet está constantamente remodelando as "rotas", a graças tecnologias como o BGP e o IS-IS.

Na prática, o tráfego de dados pode sair da infraestrutura nacional a qualquer momento, mesmo que os dispositivos conectados estejam no mesmo país. Tudo vai depender da rota ideal traçada no momento da conexão. É para isso que servem os ponto de troca de tráfego (PTTs) que a legislação russa passou a controlar – eles interligam diversos provedores de internet para aprimorar o fluxo de dados.

Ou seja, não basta bloquear o destino das conexõe para "nacionalizar" a internet. Todas as rotas devem ser monitoradas para impedir a escolha de certos "caminhos", mesmo quando as informações disponíveis indiquem congestionamento na infraestrutura nacional.

Outro desafio é que a, a infraestrutura para algumas partes da internet é global. Endereços ".com", ".net" ou ".org", por exemplo, abrigam sites de qualquer nacionalidade. Para que esses sites não fiquem indisponíveis, deve ser criado algum mecanismo que mantenha sites específicos funcionando – ou então alertar os donos de sites que esses endereços podem ser derrubados em uma situação de internet "desconectada".

Por que a Rússia quer criar uma internet nacional?

A Rússia diz que a capacidade de desconectar o país da internet mundial pode garantir a segurança da infraestrutura de comunicações em casos de guerra ou ataque cibernético e proteger a soberania nacional. Mas a eficácia da medida para essa finalidade é questionável: qualquer espião ou agente infiltrado no país pode facilmente conseguir uma conexão local e continuar realizando ataques.

O vírus Stuxnet, que atingiu usinas nucleares no Irã, é um exemplo: ele foi injetado na rede das usinas por pen drives.

Como todos os provedores são obrigados a instalar softwares e equipamentos fornecidos pelo governo, é inegável que as autoridades aumentaram o controle e o poder de monitoramento sobre o todo o tráfego do país. A infraestrutura instalada é semelhante àquela utilizada na censura da internet chinesa.

Mas a possibilidade de "desconexão" também favorece redes sociais e prestadores de serviços dentro do país: só eles continuarão funcionando durante o acionamento da "RuNet". Qualquer bloqueio – necessário ou não – vai incentivar os russos a procurarem serviços locais. A criação de uma alternativa russa à "Wikipedia", que deve contar com investimento do governo, é outro indício de que a Rússia se preocupa com a manutenção de serviços nacionais.

Dito de outra forma, o que importa não é apenas o desligamento da internet, mas sim o que continuará funcionando sem ela.

E não é só na internet que a Rússia tenta afastar a influências das empresas de tecnologia estrangeiras. Segundo o site russo "Open Media", o uso do Windows 10 não foi autorizado em sistemas que lidam com informaçõs sigilosas no governo. Por essa razão, até o presidente Vladimir Putin ainda estaria usando o Windows XP, lançado em 2001. Quando esses sistemas forem migrados, o país deve adotar o Astra Linux, uma distribuição Linux mantida por russos.

Em julho de 2020, a Rússia dará mais um passo nessa direção: a lei vai obrigar todos os celulares, computadores e smart TVs comercializados no país a incluírem programas de origem russa pré-instalados.

No fim das contas, independentemente das intenções e da eficácia, o conjunto de medidas aprovado pela Rússia vai proteger os serviços locais de pressões técnicas, econômicas e jurídicas. O preço disso, no entanto, é difícil de ser calculado. Além de ficarem de fora dos investimentos internacionais em tecnologia, os russos correm o risco de acabar com serviços de qualidade inferior ou com um fluxo de comunicação mais lento que o de países sem restrições.

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Fonte: G1

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